Caminhou um, dois, dez passos, todos olhando para trás. Observava que ele se afastava, nos seus passos flutuantes, pusera a mão dentro do bolso, tirara os óculos escuros e fora em direção ao sol, caminhando naquela eterna despreocupação dele de quem segue a vida com uma leveza sobrenatural.
Já não o enxergava mais, quando voltou sua cabeça para frente, o queixo rente ao pescoço, analisando os passos que dava.
Passos desiguais, baixos, arrastadiços.
Nunca soubera andar na rua. No olhar nada cabia além do vazio que ela levava consigo. Sorria quando via um cachorro, um cena inusitada. As mãos frouxas batiam hora na bolsa, hora nas coxas, sem interesse em se agarrarem em alguma coisa.
Sem interesse em mais nada.
Olhava a própria sombra e admirava o poder que o sol tinha de pô-la curvas onde nunca imaginara ter; ela era sua própria sombra, seu próprio escuro, o buraco onde escondia o que quer que fosse.
Queria que ele estivesse lá. Queria voltar correndo só para, mais uma vez, olhar fundo nos seus olhos e implorar.
Não.
Continuou, com seus passos e seu olhar de quem se perdeu da vida e da própria sorte, de volta para casa.