20.3.11

Untitled

Acabei com mais um isqueiro, e dessa vez usei um daqueles fósforos super longos que serviriam pra acender os charutos que eu tenho mofando na gaveta do meu criado-mudo. Esse cheirinho de cabeça de fósforo apagada enche a sala e eu gosto, mas ainda prefiro o cheiro e o gosto que o fogo do teu isqueiro deixam no meu cigarro.
É estranho. Eu não era assim.Essa tua incrível capacidade de despir essa máscara que eu usei a vida toda só com um olhar oblíquo, esse silêncio confortável que paira enquanto estamos sentados olhando pro nada; sabe, um filme uma vez disse que a gente só sabe que uma pessoa é especial quando não há tensão quando se instala o absoluto silêncio.
E eu podia ficar olhando teu sono por horas.Sem mover um músculo sequer, em total silêncio.
Não me entendo e muito menos entendo esse impulso em sair escrevendo coisas que nunca deveriam ser ditas. Tenho fé na tua incapacidade de perceber todos os meus atos explícitos de carinho. Sou convicta de que nada do que eu disser será levado a sério, e se for, será ignorado.
Quantas vezes já tentei admitir pra mim mesma que isso tudo é uma grande causa perdida, e que eu deveria estar feliz em ter só o teu silêncio cheio de sono e pontuado por bocejos.
Isso é tudo uma grande causa perdida, não?
Não me entendo, e parece que os dias são todos uns borrões só com teu rosto em foco. A menina dura e coração-de-pedra se torna aquela que ela sempre foi, mas escondeu de tudo e todos. Eu até acharia bonito se não fosse esse turbilhão de tudo-novo dentro de mim.
Não me imagino sendo outra, ou melhor, não aceito ser eu mesma se não exclusivamente pra ti. E enquanto eu olho com olhos de cão perdido tudo isso, eu peço pra mim mesma: Não vai, por favor.
Se eu abrir a tampa do isqueiro tu aparece magicamente do meu lado, será?
E não há foto melhor que essa que eu capturei com meus olhos pra me apegar enquanto sinto falta de te ter por perto. E não tem visão melhor que essa tua se aproximando com uma cara impassível e, ao mesmo tempo, cheia de expressões.
De longe, é a melhor parte do meu miserável dia. E eu queria mais que algumas linhas pra poder mostrar isso.
Quem sabe, um dia.

4.3.11

A Porta

Aquele cheiro ruim estava há semanas incomodando. Cheiro de bicho morto. Rato morto. Não sei explicar o cheiro de um rato morto, mas é o que me vinha à cabeça quando começava a exalar.
Examinei ralos e pias e até a casa da vizinha, que fede tanto que me faz pensar que seja de lá esse cheiro fétido de morte.
Mas depois que eu descobri aquela porta debaixo das escadas, não havia como negar: era meu o cheiro, vinha da minha casa e era dali, daquele lugarzinho que ele saía.Não tinha maçaneta e parecia tão hermeticamente fechada, acho que é por isso que nunca reparei naquele detalhe da casa.
Não sou de ficar acordada até tarde, sabe, mas aquele dia tava tudo tão hiperativo dentro de mim que perdi o sono. Fumei um, dois, três cigarros, andando pra lá e pra cá na frente da porta.
Pensei em abrir, mas como, meu deus, como abre isso? Aquela tua faca de churrasco deve servir pra isso, mas tu ia ficar puto se eu tirasse todo o fio dela pra destrancar uma porta... foda-se.
Eu tremi de medo de encontrar algo maior que um rato ao abrir. Tentei me focar no que fazer no dia em que tu voltasse, nas crianças que estavam demorando naquela viagem de férias da escola, no cachorro que tinha desaparecido atrás de uma cadela no cio. Acho que a gente tinha que castrá-lo, pra ver se ele pára de fugir.
Resistente, essa portinha, e conforme eu ia passando o fio da faca no vão, o cheiro ficava mais forte. "Te mandei desratizar a casa, Rodolfo, te mandei", pensei.A porta estalava, demosntrando resistência à faca, que eu forçava como se fosse encontrar um tesouro. Faltam só mais dois lados, só mais dois.
Parei pra fumar outro cigarro.Tu sabe, Rodolfo, tu sabe como sou fraquinha pra essas coisas, prefiro que tu faça o serviço "de macho" da casa. Cada um com o papel que cabe ao seu sexo, não é isso que tu diz?
Não precisei forçar muito mais. A porta abriu sem nem ranger, e mostrou um aposento pequeno e baixo todo no escuro. Um interruptor, que seja... nada. Vai no isqueiro mesmo.
A luz era fraca, mas não fraca o suficiente pra me mostrar que o bicho morto dentro do quartinho era bem, bem maior que um rato.
Ai, Rodolfo, o que eu fiz contigo?!