24.3.10

A Danação

Eram belos olhos da cor do escuro que me amedrontava na infância. Belos olhos de negrume, belos cabelos que sempre pareciam estar molhados, bela pele apática da cor de quem cresceu num lugar sem janelas.
Era toda bela, toda bela.
Nunca falava, nunca pensava - ou nunca me deixava desvendar o seu olhar. Passava meus dias assistindo os cabelos descerem por seus braços lanhados enquanto ela escrevia.
Braços lanhados. De gilete. Milhares e milhares de cicatrizes que doíam até na alma de quem as via. Imagino até hoje se ela teria o resto do corpo lanhado daquele jeito, se fazia porque gostava, se faziam nela, se a intenção era atrair atenções.
Imagino-a como alguém que talvez tenha deixado o sofrimento tomar conta de si.
Eu juro que a teria amado.
Adorava o tom que havia na sua risada, engasgando pela próxima respiração, implorando para que o tempo passasse.
Não a ouço mais, não a ouço mais.
Eu a via todos os dias, depois algumas vezes por semana, depois não mais.
Lanhara-se novamente, e fora eu quem a encontrara, olhos arregalados fitando alguma coisa interessantíssima, pele rígida e fria, estirada no chão de uma rua suja no meio de miseráveis, junkies e prostitutas. Nunca a imaginara assim, em meio à podridão, ao abandono.
Lanhara-se novamente e sangrava, sangrava, sangrava; sangrava o sangue da dor, do sofrimento, da solidão; se livrara de tudo, se livrara de si mesma.
Não a culpo; aguentara o máximo que pudera, e eu a sentia fria como o mais frio e úmido dos invernos.
Não a culpo, não a conhecia, só a admirava, admirava, admirava.
Livrara-se da danação de viver nesse mundo de meu Deus. 
E eu me livrara de viver na danação do amor platônico.

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