21.10.10

Finalmente.

A casa dum cinzento sisudo feito dia de funeral caiu feito pedra aos olhos dele; Nunca antes estivera naquele bairro, sequer naquela rua, nunca repararia numa casa feito aquela não fosse por hoje. O dedão da mão esquerda se movia sozinho como quisesse sair correndo da sua mão. Não suava, mas um gosto agridoce tomava conta da sua boca.
Conferiu o hálito uma, duas, três vezes: Cheiro de nada, o melhor cheiro que havia, na sua humilde opinião. Pisou com cuidado na escadinha de madeira podre e escura da entrada da casa, e entrou sem sequer tocar a campainha.
O átrio da casa recendia a conhaque e a água de colônia comprada na mais chinfrim das boticas.  Largou o chapéu no cabideiro, tirou o casaco e com cuidado trocou a carteira do bolso interno do paletó para o traseiro da calça.
Aqueles dois pezinhos enfiados de qualquer jeito na chinelinha de plumas vermelhas esperavam, impacientes, por um olhar que se fixasse no rosto, e não no resto do corpo.
Não era bela, mas nem isso tirava a magia que era a sua visão.
"Vem, meu nego, que te esperei a tarde toda."
Ele tinha mãos que suavam demais e as esfregava com uma absurda frequência nas calças; nunca antes estivera em presença de tal tipo de mulher. Nunca antes estivera com qualquer tipo de mulher, na verdade.
Os pezinhos emplumados desceram as escadas e uma mão com unhas compridas e mal-feitas se estendeu para ele. Tomou aquela mão como quem tomava a hóstia do vigário, e subiu.
Na porta ela já se despira; o corpo acobreado e tísico se deitara na cama, e a mesma mão mal-cuidada o chamou para si.
Não havia escapatória.
Calça, camisa, sapatos, tudo tirado de forma desajeitada, e da mesma forma deitou-se em cima da rapariga; olhos grandes feito moedas olhavam-na, apavorados, como quem pergunta o que fazer a seguir.
"Entra."
Sucessão de suspiros, suor e palavras disconexas, as caras e bocas daquela mulher lhe prendiam a atenção. Seios, mãos, pernas macias e ao mesmo tempo rijas, como podia isso? Beijou-a, um beijo ávido de paixão seguido dos gemidos dela. "Não faz parte do programa, Nego, tenho marido, tenho marido!"
Foi, e veio, e foi e veio sem sequer tirar os olhos daquele rosto há minutos totalmente desconhecido.
Veio o gozo, e veio a culpa. Levantou-se num sobressalto, procurou a carteira no bolso da calça e largou algumas notas que nem se importara em verificar o valor.
"Que é isso, Nego, é demais..."
"Cala a boca e aceita, é de coração."
Desceu a escadinha de madeira podre com um sorriso de canto de boca, acendeu um cigarro e pensou:
"Finalmente homem."
Finalmente.

Nenhum comentário: