21.10.09

Mais um conto.

Já não havia apreensão no seu olhar; ela jazia deitada no sofá, com olhos arregalados que fitavam a luz do sol que refletia no vidro do seu apartamento no terceiro andar.
Havia manchas pela sala toda, manchas que iam enegrecendo e cheirando a uma podridão que ela não estava acostumada a sentir. Não tinha coragem de levantar, sequer de virar a cabeça, a dor era demais. Àquela hora o sol assumia um tom pálido de quem é obrigado a se retirar para a entrada espetacular da lua, e o cômodo ia escurecendo num ânimo de moribundo sem salvação.
Há quantas horas deveria estar naquela posição? Sentia a nuca adormecida no braço do sofá. Não se lembrava quem era, o que era, nem que lugar era aquele. Sua única certeza era a de que havia algo de muito sujo naquela cena.
Um brilho metálico chamou a sua atenção. Seguiu-o apenas com os olhos, o corpo ainda como estátua. Aquele brilho vinha da sua mão.
Desejava se mexer, mas não conseguia. Os nós de cada dedo estalavam-se por si próprios, e aos poucos ela sentia uma dor incomensurável - a dor da dúvida.
Algumas de suas unhas quebradas se fincavam na palma da mão direita; seguravam, com uma força sobrehumana um abridor de cartas. Examinou-o. Estava amassado e torto em vários pedaços, e a ponta parecia ter sido quebrada, como se fincada em alguém.
Num súbito de coragem, olhou para si: impecável da cintura pra baixo. Na blusa, manchas negras e rasgões na região das costelas, e só. Tocou o rosto e sentiu uma ardência quente de quem foi esbofeteada na região das maçãs do rosto.
Luz. Desejava luz, desejava se encontrar naquele breu que doía nos seus olhos. Não é possível, uma hora eu vou ter de levantar daqui, droga!, pensou. Arrastou os pés em direção ao chão e, ao projetar-se para frente, pisou em algo gelado e que ainda estava na transição do mole para o rígido. Caiu de cara no chão.
Apavorou-se, mas seguiu em frente. Os dez passos que teve que dar pareceram dez quilômetros. Tateou em busca do interruptor. Luz, pelo amor de Deus, luz!
A luz se fez. A imagem era aterradora. Nas paredes, sangue podre respingado de uma forma quase artística.
Com um grito mudo, escorregou pela parede em direção ao carpete.
No chão, ele a encarava com os olhos acusadores que só um morto pode ter.

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