Mandaram-na seguir a vida, vivê-la bem, e ser feliz. Mas o coração dela sentia que era hora de parar.
Seu olhar perdera a vida, seus cabelos já não tinham viço, seu desejo era apenas uma lembrança da vida que construíra. Anulara seus sonhos, cancelara seus planos, era um preparo para o fim.
Ao entrar no carro, desejava acidentes, desejava ser projetada por entre cacos de vidro e que seu olhar, sem mais significados, encarasse o céu que antes ela olhara com tanta paixão.
Agora ela anda de cabeça baixa, encarando os próprios pés, ruminando vergonha e solidão.
Ninguém mais pra cuidar dela.
No seu olhar não existe mais vontade, no seu sono apenas pesadelos, no seu corpo não há mais calor. E o coração, ah, o coração, que bate com força e se cansa aos poucos, para ela desmaiar no fim do dia.
O mesmo coração que agora relembrava o vazio de ser só.
As mãos trêmulas escreviam cartas com letras ilegíveis para aqueles que ela ainda tinha esperança que a amassem; o olhar catatônico e a mente cheia de perdão diante de papel molhado pelas lágrimas que ainda era capaz de emanar.
Ela não sabia que caminho tomar. Então era o fim.
Toda a ignorância, todo o desrespeito, toda a solidão se transformaram naquilo que ela olhava diante do espelho. Olheiras, boca seca e olhar sem brilho. Havia uma certa beleza no que via e no que sentia, beleza feia, porém.
Se tudo dera errado até agora, não havia motivo para seguir em frente.
Desejava não mais a piedade, não mais a autocomiseração, não mais os olhares condescendentes.
E a noite se aproximava, a lua convidativa e hipnotizante, era hora, era hora!
Mergulhara no mar. Nem se dera ao trabalho de tirar os sapatos. Primeiro as canelas arrepiadas de um frio que ela nem sentia, a saia molhada, nas mãos uma rosa branca. Fora ter com quem ela nunca duvidara do amor, cada vez mais fundo, mais fundo, e deixou-se cair por entre água, sal e areia; olhos sempre abertos, sempre.
Tchau.
Ela era apenas humana.
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