15.11.10

Baseado em uma história real.

Quando ele se sentou ao meu lado naquele bar, eu pensei "é encrenca." Não estava enganada.
A questão é que desde aquele instante eu quis.
Eu quis ter saído com ele dali quando fui convidada, eu queria ter continuado todo aquele blablabla nonsense em inglês em um lugar mais calmo.
Eu percebi que eu só adiei a encrenca.
Jeito estranho de mostrar que quer uma mulher é encostar a sua panturrilha na dela. E eu entendi aquilo, que frustrante pra mim.
Ele virou um passatempo. Um agradável passatempo. E o único problema dos passatempos é que, quando se tornam bons demais, a gente não quer parar. E além disso, era amigo; quantos homens bons ouvintes uma mulher pode encontrar na vida? Eu encontrei. E me espantava ele falar tanto quanto eu.
Eu não queria parar com aquilo. Eu não quero parar, de fato.
O problema é que quando se nasce mulher, tem certas coisas que a gente pode realmente negar, mas elas estão ali, maldosamente implícitas dentro de nós.
Quando aquele olhar passou a me acalmar, quando o beijo, tão banal, passou a me paralisar, quando o braço em torno dos meus ombros se assemelhava a uma fortaleza, eu descobri que eu fiz exatamente o que eu condeno em todas, todas as mulheres.
Ah, tigre, tigre, eu me apaixonei.
E que diabo de amiga seria eu se contasse uma barbárie dessas?
Guardei dentro de mim como se guarda um tesouro num cofre. Inviolavelmente platônica. Dolorosamente silenciosa.
O que me doía mais não era guardar aquilo pra mim, era ser forçada a guardar aquilo.
Mas eu não era o suficiente.
Eu não sou o suficiente.
Ele merece coisa melhor. Eu mereço coisa melhor.
Eu mereço coisa melhor?
Eu mereço coisa melhor.
Doía a presença e doía a falta. Doía o beijo que convidava ao sexo e doía o beijo acanhado de tchau no dia seguinte.
Doía ser a amiga-que-ama.
Doía saber que ele sabia, e doía o silêncio.
Doeu perceber que eu não desejava nada além de contar.
Não queria nada em troca. Amor. Amizade. Sexo. Um olhar repreensivo que fosse! Não pedi nada. Nunca pediria.
E eu jamais olharia naqueles olhos e diria "olha, eu te amo, ok?, só que eu me sinto tão pouco pra ti que eu tô indo embora."

Sem tchau nenhum, eu simplesmente fui embora. 

Um comentário:

Jó. disse...

Deuses! Será que todo mundo vive isso uma vez, pelo menos, na vida?