Imagino o que te levou a fazer isso.
Imagino a frieza nos teus atos ao fingires que estava tudo bem; imagino a ausência de sentimentos e de culpa enquanto tu te arrumavas, e a rigidez no teu dedo indicador enquanto puxava o vidro da janela só com ele.
Receio saber o porquê de não quereres que ninguém visse aquela cena.
Sinto dores físicas ao pensar nos teus olhos marejados enquanto atavas aquela corda. Meu coração dispara quando penso na força que fizeste te empurrando pra baixo.
Enquanto te aniquilavas, eu sentia meu coração bater sem ritmo do outro lado da cidade.
O que vias enquanto perdia o ar? O que pensavas enquanto a vida se esvaía dos teus pulmões? Que espécie de egoísmo covarde foi esse que se apoderou de ti? Quem disse que podias me abandonar?
E enquanto eu me pergunto eternamente, eu imagino teus olhos de amêndoas doces perderem o brilho. Tua boca fechada. Tua mente vazia. Tua posição e teu olhar fixos. Teu pulso parado e tua pele já amornecendo. Tu não te mexe, tu não fala comigo.
Respira, por favor.
Quem te fez mal pra te safares assim? Quem te disse que esse era o jeito mais fácil? Quem, meu deus, quem te disse que eu ficaria bem?
Abre os olhos, abre.
Eu tento te beijar mas é tão frio, tão frio e sem sentido te ver assim. Tu não pareces atordoada, ou preocupada, nem sequer sabes da minha dor. E eu me convenço de que estás dormindo, até a hora de te ver lacrada dentro de um sepulcro. Não é esse o teu lugar. Não é aí que quero te visitar.
Teus dedos estão entrelaçados e tudo o que eu queria agora era te dar a mão. Abre as mãos, abre os braços e me abraça, abre esses teus malditos olhos de amêndoas doces e me olha. Não me maltrata assim, eu só quero vê-los mais uma vez. Abre tua boca e me diz que tudo está bem e que foi tudo um pesadelo. Me acorda com um abraço, por favor, e me diz que passou.
Respira!
Tuas flores preferidas estão ao teu redor e tu nem tens ideia de que elas estejam ali. Escolho uma a uma na esperança de que te levantes com o cheiro. Cheiro de vida com cheiro de morte, tu vês a ironia? Preferia que o cheiro de morte viesse das flores. Preferia que elas estivessem mais geladas que as tuas bochechas sem cor. Te preferia aqui.
Respira, por favor. Respira.
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