Era como se estivesse num carrossel, mais precisamente em uma xícara maluca. No começo, as coisas giram devagar, e se sente um friozinho no estômago. A velocidade do carrossel aumenta, e ela aumentava a velocidade de giro da xícara onde estava sentada.
Em alguns segundos, o mundo era um turbilhão de barulhos desconexos e luzes disformes.
A cara tola e sorridente fixava os olhos em um ponto só, mas o rodopiar da xícara não permitia a ela focar em nada.
Mas ela gostava daquilo.
Era como se a eternidade se transformasse em apenas segundos; os desvarios, o frio na barriga, a falta de ar, sensações misturadas que traziam a ela um conforto inquietante aumentavam cada vez mais e mais, até que ela imaginasse conseguir viver apenas sentindo aquilo.
Num solavanco e sem porquês plausíveis, o carrossel parara, e a xícara também. Não havia mais turbilhão, não havia sensações gostosas nem eternidades transformadas em segundos.
Tudo virara um mar de náusea e tontura.
Fora tirada à força dali, do lugar onde ela encontrara um porto seguro dos males do mundo. Fora arrancada de um lugar que em alguns minutos seculares se tornara seu, só seu, o seu castelo inatingível, seu conforto, sua prisão.
Era o fim. Era o fim da brincadeira, o fim do faz-de-conta.
Jogaram-na de volta no seu mundo, tiraram-na do seu brinquedo, como se não servisse, como se não importasse mais.
Era ela, só ela, de novo, naquele mar de gente estranha de face borrada, naquela multidão de desinteressados frios e egoístas.
Foi quando as lágrimas contidas caíram, silenciosas.

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