1.9.10

O meu cântico do calvário

Odeio dias de sol. Agora mais ainda.
Parecia que o dia sorria por tê-la no céu. Parecia que as coisas poderiam continuar como sempre, leves, amistosas, rotineiras. O mundo é cruel, porque nada ficou no lugar.
Odeio dias de sol.
Não me perguntei o porquê, e me nego a fazê-lo até hoje; faz quase um mês. Um mês surreal, onde eu vi arrancada da minha vida a pessoa que eu mais amava e mais queria bem no universo.
E eu só consigo lembrar do riso dela, acabrunhado, como se fosse proibido sorrir naquela casa. Eu vejo os olhos de amêndoa brilhantes que me censuravam a cada comentário estúpido, a cada frase ou atitude impensada.
"Sabe, Carol, antes de nascer, eu cuidava de ti. Acho que agora tu tens que cuidar de mim, já que eu tô aqui."
'E eu cuidei bem de ti', me pergunto, 'pra chegares a esse ponto?'
E ela nunca vai poder me responder isso.
Ela odiava estudar. Madrugava era pra ver televisão, a dananda. Gostava de mesa farta, com gente rindo ao redor, comida quente e olhares mornos de quem se ama mutuamente. Passeava sob o sol quente horas e horas em silêncio, olhando ao redor, pensando na vida. Era bela, e mais que bela, era modesta, e a modéstia aumentava aquela beleza de uma forma tal que ela era belamente imaculada.
E eu gostava de vê-la feliz. Ah, como gostava.
Odeio dias de sol.
O mundo não chorava, triste, por vê-la partir; mas sorria, satisfeito, por ter seu anjo de volta à casa.
O mundo que se foda, eu te quero de volta.
O mundo que chore, eu só queria ouvir tua voz mais uma vez.
O mundo que se conforme, meu desespero é diário, não passa, não passa.

O mundo sorria, satisfeito, mas esse sorriso maldoso e cínico deixou dentro de mim a dor e a tristeza que a tormenta causa.
O mundo sorri por me deixar sozinha e perdida.
E eu sorrio por saber que não é verdade.
Eu sorrio por saber que estás sempre e sempre comigo.





"A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." - Chico Buarque.

Nenhum comentário: