20.9.10

A Esquina.

Não arrumei, não dobrei nenhuma roupa; joguei-as dentro da mala. São roupas, não um bebê recém-nascido que você precisa cuidar e amar e fazer carinho o tempo todo. Aliás, não preciso nem de roupa, minha pele mais que basta.
Aquele quarto de paredes descascadas e a cama de ferro branco postada bem no meio do cômodo me deixavam incomodada. Acabou, querido, acabou o tempo em que eu te levava pra escola pela mão como se você fosse uma criança em época pré-escolar.
Eu sei que depois que for embora, você não vai notar minha ausência; nem valor, não é?, dizem que a gente dá valor às coisas quando perdemos elas.
Eu queria ter mais que aquela arma velha que sua avó te deixou de herança e eu, cuidadosamente, escondi de você e desses seus desejos suicidas.
O portão pichado travou de novo, e eu não vou pagar pelo chaveiro. Chutei uma, duas, três vezes, ele abriu e foi assim que eu o deixei. Grande bosta o seu portão.
Senti a calçada como se fosse a minha vida. Tipo quando as pessoas passam apressadas e sem notar no que pisam, ou aquelas mulheres nojentas de salto fino que cravam aquelas porcarias nos vãos do meu peito.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, a gente brincava disso, lembra?
Senti a calçada e percebi que tinha saído de camisola; grande bosta, também, ninguém nota, ninguém nunca notou. Queria as balas da sua arma. Queria mais que você pode me dar.
Meus passos são vagarosos e não têm pressa de chegar à esquina; você sabe, a gente dobra uma, dobra outra, dobra outra e outra até que chega no mesmo lugar, andando em círculos maldosamente quadrados que nos trazem a falsa impressão de ir longe.
Eu nunca fui longe na minha vida. Nunca, depois de você.
Agora eu estou no meio do caminho, e a esquina tá lá, longe e perto ao mesmo tempo; perdi umas calcinhas e outras meias no caminho, que se foda a mala, minha pele, minha pele é o que me basta.
Me senti pichada como aquele armazém da esquina que você costumava comprar pão de queijo pra mim. Odeio pão de queijo, desde aquela vez que a gente achou um inseto dentro de um, mas eu estou pichada, meu peito está marcado, meu rosto, meu deus, pareço um panda com esse rímel todo borrado.
Assim que eu chegar na esquina, acaba, acaba, acaba.
Eu não me importo de errar o tiro, de vegetar em dor, de ficar louca com isso, de esquecer de tudo; esquecer é bom, né?, quando a gente anula da cabeça tudo aquilo de bom e de ruim que passou e vira um ser indiferente.
Como pesa, essa arma da sua avó.
Três passos.
Dois.
É o último sorriso.
O último sorriso que você me dá antes de levar o tiro.
O último brilho desses teus olhos âmbar antes de fitarem o vazio. Vazio, vazio. Tipo eu.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, lembra?

Como quer.

"Depois que se deita na cama de um estranho, ele fica mais conhecido que muitos dos seus amigos", é o que ela pensava.
Por muitos anos não adotara daquela filosofia, até que um dia provara; foi bom, embora vazio. E era de vazio que se resumia sua vida desde então.
Emoções não eram forte e sempre preferira ter muitos e nenhum ao mesmo tempo.
"Assim não dói, sabe, quando um resolve ir embora."
Mas o que lhe deu prazer foi o fato de ter deitado ali, e ter deixado ali a marca da sua presença. Deu prazer saber que dela só lembrariam o prazer em si, e se lembrarem, seria com aquele sorrisinho interno que mistura malícia e vontade.
Não se gabava, longe disso, era até mediana - veja bem, não era uma deusa da beleza e da boa forma, nem uma Afrodite no cio, servil e ardente. Era alguém, e nem disso se lembrariam, quem sabe.
Ossos do ofício.
Um dia tanto amara, e hoje nem a si mesma sentia esse tão nobre sentimento.
Deitara ali pensando como um viciado que mente para si. "Só mais essa vez, e juro, calo minhas vontades". Pobre dela, que não pensava mais de uma única vez e nem agia sem antes fazê-lo.
Pobre dela, que saíra dali querendo mais.
Saíra como queria.

12.9.10

Um daqueles sem título

Remexi todas as minhas gavetas, à procura das contas atrasadas. Achei uma caixa pequena, daquelas que a gente compra em lojinha de artesanato; abri e me deparei com aquelas lembranças. Cartas, fotos, as nossas alianças.
Foi estranho lê-las todas, as cartas. Tinham gosto amargo e envelhecido. Gosto de adolescência.
E eu já não tenho idade pra rememorar sentimentos.
Senti um nojinho de lembrar de todas as vezes em que nos agarramos, sem pudor, em pracinhas onde crianças balançavam sem entender os olhares de reprovação das mães sobre nós dois; senti pena de todas as vezes que falhaste e eu disse 'tudo bem, meu amor, acontece.'
Acontece que não acontecia assim como acontecia contigo, que ironia.
Fiquei velha demais para sentimentalidades e saudosismos? Não, fiquei realista demais para tais sentimentos.
Que dirão meus filhos quando souberem que a avó dos netos deles fugia de casa pra se trancar no quarto do namoradinho proibido?
Ririam, certamente...
Assim como eu rio de mim mesma.

3.9.10

Reminiscências

Até a tinta da parede tinha descascado, tão velha era a casa. Já era velha quando fomos para lá; dos móveis restaram apenas as fotos e as lembranças daquilo que parecia ter sido um tempo bom.
Grande merda, o pó. Deitei no chão, pernas esticadas na parede, uma inversão do sentar convencional.
A porta grande da varanda escancarada trazia os restos do jardim.
Que saudade daqueles dias onde ficávamos deitados na cama até a hora de voltar a dormir.
Virei a cabeça. A infiltração na parede fazia desenhos de rostos desconhecidos.
Fechei os olhos.
Virei para o outro lado.
Eu saberia reconhecer teus pés em qualquer lugar do mundo.

1.9.10

O meu cântico do calvário

Odeio dias de sol. Agora mais ainda.
Parecia que o dia sorria por tê-la no céu. Parecia que as coisas poderiam continuar como sempre, leves, amistosas, rotineiras. O mundo é cruel, porque nada ficou no lugar.
Odeio dias de sol.
Não me perguntei o porquê, e me nego a fazê-lo até hoje; faz quase um mês. Um mês surreal, onde eu vi arrancada da minha vida a pessoa que eu mais amava e mais queria bem no universo.
E eu só consigo lembrar do riso dela, acabrunhado, como se fosse proibido sorrir naquela casa. Eu vejo os olhos de amêndoa brilhantes que me censuravam a cada comentário estúpido, a cada frase ou atitude impensada.
"Sabe, Carol, antes de nascer, eu cuidava de ti. Acho que agora tu tens que cuidar de mim, já que eu tô aqui."
'E eu cuidei bem de ti', me pergunto, 'pra chegares a esse ponto?'
E ela nunca vai poder me responder isso.
Ela odiava estudar. Madrugava era pra ver televisão, a dananda. Gostava de mesa farta, com gente rindo ao redor, comida quente e olhares mornos de quem se ama mutuamente. Passeava sob o sol quente horas e horas em silêncio, olhando ao redor, pensando na vida. Era bela, e mais que bela, era modesta, e a modéstia aumentava aquela beleza de uma forma tal que ela era belamente imaculada.
E eu gostava de vê-la feliz. Ah, como gostava.
Odeio dias de sol.
O mundo não chorava, triste, por vê-la partir; mas sorria, satisfeito, por ter seu anjo de volta à casa.
O mundo que se foda, eu te quero de volta.
O mundo que chore, eu só queria ouvir tua voz mais uma vez.
O mundo que se conforme, meu desespero é diário, não passa, não passa.

O mundo sorria, satisfeito, mas esse sorriso maldoso e cínico deixou dentro de mim a dor e a tristeza que a tormenta causa.
O mundo sorri por me deixar sozinha e perdida.
E eu sorrio por saber que não é verdade.
Eu sorrio por saber que estás sempre e sempre comigo.





"A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." - Chico Buarque.