8.10.11

Se eu soubesse...

...que eu iria me acabar aos poucos, que a vontade de sorrir seria consumida pela vontade de chorar, que depois de tudo, isso não significa nada...

...eu teria guardado o melhor de mim pra quem quisesse tê-lo.

11.7.11

I - O Tornado

Ele foi feito num dia de sol, um daqueles dias que eu odeio com todas as minhas forças. Odiava, até saber que ele estava dentro de mim.
Foi ligeiro e certeiro; não havia como saber que ele viria como um tornado. Me rasgando, dolorido, sofrido, irrompendo com força, com vontade de vingar.
E eu o amei desde o começo.
Ele veio na pressa, no momento errado e para as pessoas erradas, sem pensar nas consequências. Não interessa a ele o nosso futuro; não interessa quem vai conseguir aguentar a sua força e o seu gênio. Veio porque quis, veio porque deu na telha. Um pequeno genioso, desde o primeiro segundo. E ninguém pode pará-lo. Ele é um tornado, que destrói o que vê pela frente pelo simples fato de que quer. E como eu gosto de tê-lo aqui, me fazendo doer, me fazendo chorar. Porque, por enquanto, ele não se vai. Ele vai continuar destruindo tudo em volta, tudo à minha volta, de uma forma que me faça não querê-las, de uma forma que me faça gostar de tal destruição.
Ele cresce de dentro, destrói, quase mata, quer provar a todos a força e o poder que tem sobre mim; e é tão bom saber que é o meu, meu, meu tornado, o meu pequeno destruidor, a minha força da natureza, minha imagem e semelhança.
E me faz cantar, toda a vez que sinto a sua força.

19.5.11

Desabafo sem sentido.

Livros de receita me fazem chorar.
Não é que eu seja ruim de cozinha, ou que eu não entenda nada do que está escrito lá. Muito pelo contrário.
Sou sozinha, entenda; não há um amor para quem eu possa cozinhar, não há uma mesa bonita num dia ensolarado onde pessoas felizes se sentem, não há sequer as pessoas felizes.
Nem eu sou feliz.
As lágrimas brotam pela ausência do amor. Não sei bem se do amor, mas talvez dos sonhos que pipocam na minha cabeça ao ver todas aquelas figuras e... enfim.
Sinto falta de ter pra quem cozinhar. Sinto falta de acordar alguém com um café da manhã cheio de clichês e de coisas boas pra se comer. Sinto falta de alguém pra olhar ternamente enquanto come. De alguém que minta que a comida está boa, quando eu errei a mão. Talvez de alguém pra, quem sabe, dar a mão e dizer "eu te amo".
Enquanto esse alguém não se manifesta, eu sigo me contentando em fazer qualquer coisa só pra mim.

11.5.11

Desabafo.

É como estar sentada no meio da escuridão à espera do nascer do sol. Eu não me mexo. Não ouso emitir um som sequer. Estou assim há dias, semanas, meses, e o sol não quer nascer para mim.
Me pergunto se nesse teu olhar existe mais que esses segredos que tu oculta, mais que esses sentimentos que tu ignora. Tenho medo desse olhar, porque é ele que me impede de te perguntar o que se passa debaixo desses cabelos castanhos e curtos.
É como atravessar o sinal aberto para os carros com uma venda nos olhos. Meu coração pede a tua mão na minha, pra me guiar, mas meu instinto sabe que ela nunca tocará meus dedos. Ao mesmo tempo que me sinto bem ao seu lado, me sinto insegura, temerosa do que está por vir.
Dói mais que os pingos grossos de uma tempestade em pleno inverno.Dentro de mim algo diz pra parar, pra te esquecer, pra admitir que eu nunca vou passar de só uma diversão.
Só uma diversão.
Tu realmente achou que, nesse tempo todo, eu nunca ia sentir nada de mais forte por ti? Em que mundo tu estava quando imaginou que essa diversão ia ser pra sempre só uma diversão?
Eu não sou como tu.
Medo todos têm, e eu mais que todos, talvez. Mas por que eu, com todo esse medo, tive a coragem de me permitir sentir algo além do simples e direto desejo, algo mais forte que uma amizade morna? Por que esse teu medo todo? Por que essa tua indiferença toda?
Há algo de estranho na tua maneira de me tratar. Algo de amoroso no abraço e de frio e distante no teu olhar. Algo que eu nunca vou decifrar.
Eu não sou igual a ti, meu caro.
Tu bem sabe que eu não choro, e tu foi o único por quem eu realmente chorei. O único que me faz sentir o coração dilacerado ao mais leve tom de mau humor da tua voz. O único por quem eu tenho essa paciência de Buda à espera do Nirvana.
É como boiar em alto-mar. À deriva das tuas vontades, dos teus humores, dos teus desejos. E eu estou perdida, sem saber que rumo tomar. Perdida numa estrada onde o começo, o meio e o fim têm teu rosto estampado nas placas.
Não sou boa com sentimentos. Não sou boa com relacionamentos, nem quero um. Mas é como tu dar as chaves da tua casa a alguém sem saber as suas reais intenções.
Não tenho essa presunção toda de achar que eu significo algo para ti além de uma amiga que atende a todos os teus desejos. Me mantenho calada e choro no silêncio do meu travesseiro essa ânsia de entender o que tu realmente quer de mim.
Eu sei que eu não sou como todas as tuas outras garotas; não sou a mulher mais bonita que tu já encontrou, nem tenho o mais belo dos corpos, muito menos o rosto mais harmonioso que tu já viu. E se eu não tenho nada disso, me pergunto o que tu viu em mim.
Também sei que tu nunca vai me tratar como tratou todas as outras. Eu não sou as outras. Eu sou só mais uma, uma qualquer que sabe o lugar que lhe cabe: nenhum.
E eu bem sei que o medo de te perguntar tudo isso é tão, tão grande que eu tenho vontade de sumir da tua vida. Pra sempre.
O que tu quer de mim?
É como andar em círculos e, olha, ninguém gosta de andar assim. Quando tu pensa que acaba, começa tudo de novo e a dor não aumenta, juro, mas eu presto muito mais atenção nela quando recosto a cabeça no teu peito à espera do beijo que nunca vai vir.
Me dá uma razão pra não ir embora, ou um motivo pra continuar. Só uma.
Tô perdida, meu bem.
Tô fodida.

3.4.11

Resposta ao "Ode ao caminho sem volta".

Meu amigo, Eduardo Maraninchi, escreveu essa poesia pra mim. Entendi-a como uma resposta ao post anterior.

Tu estavas linda
neste dia
Um Buda de pedra, terrível
e nirvanático.
A corda
Em teu pescoço era uma
jóia, rara
e provavelmente pagã.
Eu não sei porque
a tirei do teu pescoço;
era tua coroa
de flores, teu rosário. Era
a tua celebração do sofrimento.
Era tu, cada fibra, cada
centímetro rasgado,
cada litro
de vida, esvaído de teus
pulmões jovens,
tristes
sacos de escuridão.
Era tu, intocável e
invencível. Para
além deste mundo, como um
disco voador ou
uma imensa estrela que
súbito se apaga.
Deixaram deslizar sobre
teu rosto esta máscara
de porcelana.
Uma geisha, uma linda geisha,
De mãos atadas, uma prece
pendendo em teus lábios,
púrpura e sem vida.
Deixaram deslizar
a humanidade para longe
dos teus olhos, sementes
vazias de flores.
Mas tu estavas linda,
e eu impotente, tentando
agarrá-la no ar,
agarrar o ar. Galgar o ar.
E era apenas ar,
e o teu corpo, um monumento,
uma escultura, um, um...!
Já não vale a pena
lembrar de ti assim, concha
onde me oculto e me desfaço.
Adeus, pérola negra.

1.4.11

Ode ao caminho sem volta.

Imagino o que te levou a fazer isso.
Imagino a frieza nos teus atos ao fingires que estava tudo bem; imagino a ausência de sentimentos e de culpa enquanto tu te arrumavas, e a rigidez no teu dedo indicador enquanto puxava o vidro da janela só com ele.
Receio saber o porquê de não quereres que ninguém visse aquela cena.
Sinto dores físicas ao pensar nos teus olhos marejados enquanto atavas aquela corda. Meu coração dispara quando penso na força que fizeste te empurrando pra baixo.
Enquanto te aniquilavas, eu sentia meu coração bater sem ritmo do outro lado da cidade.
O que vias enquanto perdia o ar? O que pensavas enquanto a vida se esvaía dos teus pulmões? Que espécie de egoísmo covarde foi esse que se apoderou de ti? Quem disse que podias me abandonar?
E enquanto eu me pergunto eternamente, eu imagino teus olhos de amêndoas doces perderem o brilho. Tua boca fechada. Tua mente vazia. Tua posição e teu olhar fixos. Teu pulso parado e tua pele já amornecendo. Tu não te mexe, tu não fala comigo.
Respira, por favor.
Quem te fez mal pra te safares assim? Quem te disse que esse era o jeito mais fácil? Quem, meu deus, quem te disse que eu ficaria bem?
Abre os olhos, abre.
Eu tento te beijar mas é tão frio, tão frio e sem sentido te ver assim. Tu não pareces atordoada, ou preocupada, nem sequer sabes da minha dor. E eu me convenço de que estás dormindo, até a hora de te ver lacrada dentro de um sepulcro. Não é esse o teu lugar. Não é aí que quero te visitar. 
Teus dedos estão entrelaçados e tudo o que eu queria agora era te dar a mão. Abre as mãos, abre os braços e me abraça, abre esses teus malditos olhos de amêndoas doces e me olha. Não me maltrata assim, eu só quero vê-los mais uma vez. Abre tua boca e me diz que tudo está bem e que foi tudo um pesadelo. Me acorda com um abraço, por favor, e me diz que passou.
Respira!
Tuas flores preferidas estão ao teu redor e tu nem tens ideia de que elas estejam ali. Escolho uma a uma na esperança de que te levantes com o cheiro. Cheiro de vida com cheiro de morte, tu vês a ironia? Preferia que o cheiro de morte viesse das flores. Preferia que elas estivessem mais geladas que as tuas bochechas sem cor. Te preferia aqui.
Respira, por favor. Respira.

20.3.11

Untitled

Acabei com mais um isqueiro, e dessa vez usei um daqueles fósforos super longos que serviriam pra acender os charutos que eu tenho mofando na gaveta do meu criado-mudo. Esse cheirinho de cabeça de fósforo apagada enche a sala e eu gosto, mas ainda prefiro o cheiro e o gosto que o fogo do teu isqueiro deixam no meu cigarro.
É estranho. Eu não era assim.Essa tua incrível capacidade de despir essa máscara que eu usei a vida toda só com um olhar oblíquo, esse silêncio confortável que paira enquanto estamos sentados olhando pro nada; sabe, um filme uma vez disse que a gente só sabe que uma pessoa é especial quando não há tensão quando se instala o absoluto silêncio.
E eu podia ficar olhando teu sono por horas.Sem mover um músculo sequer, em total silêncio.
Não me entendo e muito menos entendo esse impulso em sair escrevendo coisas que nunca deveriam ser ditas. Tenho fé na tua incapacidade de perceber todos os meus atos explícitos de carinho. Sou convicta de que nada do que eu disser será levado a sério, e se for, será ignorado.
Quantas vezes já tentei admitir pra mim mesma que isso tudo é uma grande causa perdida, e que eu deveria estar feliz em ter só o teu silêncio cheio de sono e pontuado por bocejos.
Isso é tudo uma grande causa perdida, não?
Não me entendo, e parece que os dias são todos uns borrões só com teu rosto em foco. A menina dura e coração-de-pedra se torna aquela que ela sempre foi, mas escondeu de tudo e todos. Eu até acharia bonito se não fosse esse turbilhão de tudo-novo dentro de mim.
Não me imagino sendo outra, ou melhor, não aceito ser eu mesma se não exclusivamente pra ti. E enquanto eu olho com olhos de cão perdido tudo isso, eu peço pra mim mesma: Não vai, por favor.
Se eu abrir a tampa do isqueiro tu aparece magicamente do meu lado, será?
E não há foto melhor que essa que eu capturei com meus olhos pra me apegar enquanto sinto falta de te ter por perto. E não tem visão melhor que essa tua se aproximando com uma cara impassível e, ao mesmo tempo, cheia de expressões.
De longe, é a melhor parte do meu miserável dia. E eu queria mais que algumas linhas pra poder mostrar isso.
Quem sabe, um dia.

4.3.11

A Porta

Aquele cheiro ruim estava há semanas incomodando. Cheiro de bicho morto. Rato morto. Não sei explicar o cheiro de um rato morto, mas é o que me vinha à cabeça quando começava a exalar.
Examinei ralos e pias e até a casa da vizinha, que fede tanto que me faz pensar que seja de lá esse cheiro fétido de morte.
Mas depois que eu descobri aquela porta debaixo das escadas, não havia como negar: era meu o cheiro, vinha da minha casa e era dali, daquele lugarzinho que ele saía.Não tinha maçaneta e parecia tão hermeticamente fechada, acho que é por isso que nunca reparei naquele detalhe da casa.
Não sou de ficar acordada até tarde, sabe, mas aquele dia tava tudo tão hiperativo dentro de mim que perdi o sono. Fumei um, dois, três cigarros, andando pra lá e pra cá na frente da porta.
Pensei em abrir, mas como, meu deus, como abre isso? Aquela tua faca de churrasco deve servir pra isso, mas tu ia ficar puto se eu tirasse todo o fio dela pra destrancar uma porta... foda-se.
Eu tremi de medo de encontrar algo maior que um rato ao abrir. Tentei me focar no que fazer no dia em que tu voltasse, nas crianças que estavam demorando naquela viagem de férias da escola, no cachorro que tinha desaparecido atrás de uma cadela no cio. Acho que a gente tinha que castrá-lo, pra ver se ele pára de fugir.
Resistente, essa portinha, e conforme eu ia passando o fio da faca no vão, o cheiro ficava mais forte. "Te mandei desratizar a casa, Rodolfo, te mandei", pensei.A porta estalava, demosntrando resistência à faca, que eu forçava como se fosse encontrar um tesouro. Faltam só mais dois lados, só mais dois.
Parei pra fumar outro cigarro.Tu sabe, Rodolfo, tu sabe como sou fraquinha pra essas coisas, prefiro que tu faça o serviço "de macho" da casa. Cada um com o papel que cabe ao seu sexo, não é isso que tu diz?
Não precisei forçar muito mais. A porta abriu sem nem ranger, e mostrou um aposento pequeno e baixo todo no escuro. Um interruptor, que seja... nada. Vai no isqueiro mesmo.
A luz era fraca, mas não fraca o suficiente pra me mostrar que o bicho morto dentro do quartinho era bem, bem maior que um rato.
Ai, Rodolfo, o que eu fiz contigo?!

5.2.11

Devaneio

Apaguei o cigarro na metade. É o último do maço, e são três e meia da manhã. Vou guardar pra quando eu estiver pensando de novo daquela forma em você.
Não sei se passei bem essa última semana ou se nem passei por ela; sabe, as coisas ficam mais solitárias quando sou só eu e os gatos miando e exigindo uma atenção que eu nunca imaginei que gatos exigiriam.
Aquela porta do guarda roupa onde você guardava as suas várias-roupas-iguais está do mesmo jeito que você deixou quando foi embora daquele jeito exagerado que era o único motivo pra brigas.
É o último cigarro, veja bem, eu te prometi parar de fumar, e quando a gente se encontrar, eu vou dizer "não, está tudo bem, faço exercício de manhã e parei com o tabagismo e as bebidas", quando na verdade eu estou aqui, com uma garrafa de uísque barato e o cinzeiro cheio de baganas, e na realidade eu estou me preparando pra não ir dormir. Não consigo.
Nosso saldo geral de relacionamento é que gente mentiu tanto nos últimos meses que eu me considero uma pessoa diferente. Sabe aquela sensação de ter saído de um mundo paralelo pra cair de bunda em terras reais, e sentir aquela falta de ar que dá quando a gente bate o cóccix no chão? É essa sensação o tempo todo, e não sei se é ruim você ter fugido de mim ou se é ruim eu estar fugindo de você; pare de me ligar, sabe?, pare de insistir em querer manter amizades superficiais e totalmente nonsense comigo, eu quero e sempre quis só o seu corpo. Fodam-se sua amizade e seu companheirismo, o que me motivava a voltar pra casa toda noite era saber que você seria meu dali a alguns minutos. Meu meu, meu mesmo, dentro de mim, sem hipocrisia e sem pudor.
Aí você me diz que eu sou uma egoísta que não pensa em mais ninguém; não é verdade, eu estou pensando em você exatamente daquela forma que eu odeio pensar. Eu odeio ter saudade. Eu odeio te desejar. Eu te odeio.
Você acabou com o meu último cigarro, seu merdinha, você e essa sua lembrança perene na minha cabeça.
Será que o vizinho me atende se eu bater na porta dele pedindo um cigarro?