27.12.09
Ela era apenas humana.
Seu olhar perdera a vida, seus cabelos já não tinham viço, seu desejo era apenas uma lembrança da vida que construíra. Anulara seus sonhos, cancelara seus planos, era um preparo para o fim.
Ao entrar no carro, desejava acidentes, desejava ser projetada por entre cacos de vidro e que seu olhar, sem mais significados, encarasse o céu que antes ela olhara com tanta paixão.
Agora ela anda de cabeça baixa, encarando os próprios pés, ruminando vergonha e solidão.
Ninguém mais pra cuidar dela.
No seu olhar não existe mais vontade, no seu sono apenas pesadelos, no seu corpo não há mais calor. E o coração, ah, o coração, que bate com força e se cansa aos poucos, para ela desmaiar no fim do dia.
O mesmo coração que agora relembrava o vazio de ser só.
As mãos trêmulas escreviam cartas com letras ilegíveis para aqueles que ela ainda tinha esperança que a amassem; o olhar catatônico e a mente cheia de perdão diante de papel molhado pelas lágrimas que ainda era capaz de emanar.
Ela não sabia que caminho tomar. Então era o fim.
Toda a ignorância, todo o desrespeito, toda a solidão se transformaram naquilo que ela olhava diante do espelho. Olheiras, boca seca e olhar sem brilho. Havia uma certa beleza no que via e no que sentia, beleza feia, porém.
Se tudo dera errado até agora, não havia motivo para seguir em frente.
Desejava não mais a piedade, não mais a autocomiseração, não mais os olhares condescendentes.
E a noite se aproximava, a lua convidativa e hipnotizante, era hora, era hora!
Mergulhara no mar. Nem se dera ao trabalho de tirar os sapatos. Primeiro as canelas arrepiadas de um frio que ela nem sentia, a saia molhada, nas mãos uma rosa branca. Fora ter com quem ela nunca duvidara do amor, cada vez mais fundo, mais fundo, e deixou-se cair por entre água, sal e areia; olhos sempre abertos, sempre.
Tchau.
Ela era apenas humana.
29.10.09
Saudade que eu sinto de viver...
Mas aí a paaaaaaz se esvaiu do meu coraçãããão...
Meu maior defeito é querer demais de mim mesma. Só me fodo, sério. Minha média de estudo é de 2 horas por dia mais 4 horas de pré-vestibular, fora meus ataquinhos de "sou burra" e eu desato a exercitar minha sabedoria em horas idiotas - tipo no banheiro ou durante o almoço.
Juro, eu tenho vida depois do pré-vestibular, juro! Eu namoro, eu vou à academia (o que é muito bom, porque eu descarrego afu meu nervosismo), eu vou à festa, até bebo, sério, mas durante tudo isso me vem a maldita culpa de não estar me esforçando mais.
Mas eu me esforço, eu estudo e eu vivo. Mea culpa, mea maxima culpa de ser louca.
Foi só um desabafo.
21.10.09
Mais um conto.
Havia manchas pela sala toda, manchas que iam enegrecendo e cheirando a uma podridão que ela não estava acostumada a sentir. Não tinha coragem de levantar, sequer de virar a cabeça, a dor era demais. Àquela hora o sol assumia um tom pálido de quem é obrigado a se retirar para a entrada espetacular da lua, e o cômodo ia escurecendo num ânimo de moribundo sem salvação.
Há quantas horas deveria estar naquela posição? Sentia a nuca adormecida no braço do sofá. Não se lembrava quem era, o que era, nem que lugar era aquele. Sua única certeza era a de que havia algo de muito sujo naquela cena.
Um brilho metálico chamou a sua atenção. Seguiu-o apenas com os olhos, o corpo ainda como estátua. Aquele brilho vinha da sua mão.
Desejava se mexer, mas não conseguia. Os nós de cada dedo estalavam-se por si próprios, e aos poucos ela sentia uma dor incomensurável - a dor da dúvida.
Algumas de suas unhas quebradas se fincavam na palma da mão direita; seguravam, com uma força sobrehumana um abridor de cartas. Examinou-o. Estava amassado e torto em vários pedaços, e a ponta parecia ter sido quebrada, como se fincada em alguém.
Num súbito de coragem, olhou para si: impecável da cintura pra baixo. Na blusa, manchas negras e rasgões na região das costelas, e só. Tocou o rosto e sentiu uma ardência quente de quem foi esbofeteada na região das maçãs do rosto.
Luz. Desejava luz, desejava se encontrar naquele breu que doía nos seus olhos. Não é possível, uma hora eu vou ter de levantar daqui, droga!, pensou. Arrastou os pés em direção ao chão e, ao projetar-se para frente, pisou em algo gelado e que ainda estava na transição do mole para o rígido. Caiu de cara no chão.
Apavorou-se, mas seguiu em frente. Os dez passos que teve que dar pareceram dez quilômetros. Tateou em busca do interruptor. Luz, pelo amor de Deus, luz!
A luz se fez. A imagem era aterradora. Nas paredes, sangue podre respingado de uma forma quase artística.
Com um grito mudo, escorregou pela parede em direção ao carpete.
No chão, ele a encarava com os olhos acusadores que só um morto pode ter.
19.9.09
Aaaah, o vestibular...!
Você, vestibulanda como eu, DEVE ler!
Você anda estudando como uma cavala, engordou 3 kilos, perdeu o namorado, tem mais pentelho que cabelo e parece não ter mais tempo pra nada. Você é vestibulanda e quer a vaga de qualquer jeito, certo? Pois bem, eu poderia lhe dizer para manter a calma, estudar muito, assistir as peças teatrais dos livros. Mas eu sei que você não é retardada, amiga. Mas anote essas outras dicas:
Matando seus concorrentes
Normalmente você dividirá a sala com seus concorrentes, já que as salas são divididas por cursos. E mais do que fazer pontos, a intimidação na sala de aula é essencial. Preparada?
Toda sala tem uma gordinha ansiosa. Ela vai estar lá, preenchendo a carteira com o seu cuzão, louca pra prova começar de uma vez. E você, linda, cheirosa e cheia de orgulho de si, vai sentar, cruzar as pernas, olhar nos olhos da gordinha e tirar 3 Ferrero Rocher's da bolsa e colocar em cima da mesa. Pronto, a gorda perdeu toda a concentração. E você uma concorrente.
Se você vai tentar algum curso em que a maioria é homens, a dica é abusar. Bata um papo com o carinha de trás: "Tá nervoso? Quando fico nervosa fico muito molhada, dá uma vontade de trepar, de chupar um pau, loucura, né?" Menos um.
Se você faz a linha porca... está com sorte. Solte peidinhos esporádicos de 10 em 10 minutos. Além de aliviar a tensão e a ansiedade, seus concorrentes irão perder um bom tempo se acostumando com o frescor do seu intestino.
Faça barulhos irritantes. Bata com a ponta do lápis na mesa, arrasta a sola do tênis no chão, faça aquele clic-clic com a caneta, suspire. Tenha em mente: Sou chata, mas tenho a minha vaga. Se o fiscal reclamar, peça desculpas, diga que está ansiosa.
Toda vez que entrar em uma matéria que você tem dificuldade e ver que não sabe responder... Faça alguns X's aleatórios na folha e faça de conta que é tudo muito ridículo, passe a folha na maior autoridade e deixe seus companheiros de sala com o cu na mão. Mas nunca deixe transparecer que você é um jegue.
Leve água, não esqueça. Sempre tem um morto de sede na sala. Sempre. Ele tem sede e você a água. Ponto pra você.
Coloque pânico na sala. Chame o fiscal e fale em tom razoável: "Oi, estou me sentindo um pouco insegura, meu namorado prometeu entrar na sala e meter 7 balas na minha cara, é que ele me pegou transando com um amigo e não gostou, você pode garantir que estou segura?" Menos 30.
Mas não deixe de estudar, viu?
Se você não tem coragem de realizar nenhuma dessas façanhas, ou leu e achou inútil, pelo menos riu da sua própria cara, porque em um dos papéis você certamente se encaixa.
Vestibular é uma merda.
14.9.09
Não é que dava um conto, mesmo...?
2.9.09
Um conto - Parte 1.
Nenhum relacionamento parte de uma amizade pura e sincera. Não, um relacionamento parte do pensamento que surge naquela parte inaudível das nossas mentes de que devemos tocar, cheirar, beijar e olhar mais profundamente aquela pessoa.
Ela não se apaixonara à primeira vista, nem à segunda, muito menos ele. Antes lhes dei tempo para cheirar e tocarem e beijarem e adimirarem um ao outro, com toda a calma e todo o ardor do mundo, e eles o fizeram com primazia.
Mas vim para contar a paixão dessas duas pessoas de um jeito completamente parcial e torto - vim para contar a versão dela.
Era um tempo um tanto quanto perturbado na cabeça de uma menina de apenas 17 anos que queria abraçar o mundo com as pernas. Não era a mais responsável dentre seus semelhantes, nem a mais inconsequente. Era ela apenas, em essência e personalidade moldável.
Nem de longe era uma heroína ou uma mocinha; era humana, antagônica, imperfeita. Assim como ele sempre fora. Nesse tempo ainda estavam fora de alcance um do outro. Mas esse dia haveria de chegar.
Nunca, nem no devaneio mais insano daquela umazinha ela imaginaria que ele estava entranhado em um mar de fibras óticas, nem que num piscar de olhos ele estaria entrelaçado em seus cabelos.
E ele era ardiloso feito cobra cujo veneno é doce e cheiroso; suas palavras, apesar de escritas, soavam como música em seus ouvidos e seu corpo latejava só de pensar nele. Àquela altura você pode imaginar, caro leitor, que ela imediatamente deitara ao seu lado, encostando seus braços gelados nos braços de fogo que ele possuía.
Não foi bem assim.
Ela tinha medo, não sei bem de que, já que ela sempre se julgara destemida. Escapou da primeira, da segunda, mas foi maldosamente capturada na terceira vez.
Era inevitável que ela fosse ao encontro dele, e por mais medo que tivesse, era movida pela curiosidade.
Não fique assim, não se descabele de curiosidade. Eu prometo voltar outra hora para contar o resto.
14.8.09
Cachorro brasileiro entende inglês?
Testei com o Axl. Falei "Come on!", "Sit!", "Shut up!", e ele só me "respondeu" no sit. Tá, eu não sou o ás do inglês - até porque a minha praia mesmo é essa língua maravilhosa que a gente fala -, nem pretendo sê-lo, mas poxa!, será que o funcionamento dos cãezinhos é igual ao dos seres humanos, que se crescem falando apenas a língua patra não entendem lhufas de outra língua?
A despeito de toda essa teoria que eu criei ao deitar, acho que o meu gato é poliglota. Fiz os mesmos testes com ele, inclusive em espanhol, e ele respondeu a tudo o que eu pedi. Se bem que ele é meio tapado e pode ter chutado as "respostas", mas não vem ao caso.
Mais uma coisa a se pensar quando olharmos para os nossos bichinhos, não?
Beijinhos.
17.7.09
Coisas que eu não sei usar.
Mas, convenhamos, pra que diabos um Twitter serve? Qual a utilidade em colocar na web em cento-e-poucos caracteres algo de inútil que você esteja fazendo? E pior: Tem gente que lê isso!!
Não, eu não fui hipócrita a ponto de fazer um Twitter só pra bombardeá-lo aqui, caro leitor. Sério, minha leviandade não me levou a esse ponto. Meu mal tem nome, sobrenome e causa nobre: Modismo.
Aderi ao Twitter da mesma maneira que aderi ao Orkut quando vi que virou uma febre mundial, e da mesma forma que aderi ao blog quando me dei conta de que o que escrevo pode tomar proporções maiores que meu círculo de amizades.
Acho que o maior problema de aderir a modismos é o fato de, muitas vezes, não sabermos como usá-lo. E me tomo como exemplo para isso. Pra que serve um Twitter?
E essa é uma pergunta retórica.
Qual a vibe de "tuitar"?
E, discordando de todos aqueles que dizem que "Twitter é um orkut com menos frescuras."
Não, não é.
Imagine um mural cheio de post-its vazios, e a sua missão é colocar pequenas frases em cada um deles, para que pessoas do mundo todo leiam (e talvez não entendam lhufas), tendo , quem sabe, uma repercussão mundial.
Isso é um Twitter.
Mas, pelamor, como o mundo gosta de inutilidades!
Inclusive eu.
10.4.09
Desabafo de quem teve um talento
Mas meus talentos não são tão visíveis assim.
Conto nos dedos a quantidade de pessoas que já me viram cantar; ninguém além da minha família vê meus desenhos, parei de dançar por pura preguiça e não durei nem 3 apresentações...
Mas que merda isso! Onde está a coragem de se mostrar talentoso? Quantas mil pessoas que são um sem número mais talentosas que eu e que aqueles que querem se mostrar talentosos estão escondidas por aí?!
Poxa vida... O mundo não pode ser privado de tantos dons que foram distribuídos, de forma completamente desigual, pelo mundo. Quantas pessoas praticamente morrem de fome e, em contrapartida, são tão talentosas! Onde está o uso - para o bem, que fique bem claro - de todos os talentos?
Me indigno em vão, pois cá ficarei e cá continuarei a desenhar só pra minha família, a cantar só a um número de pessoas extremamente pequeno, a cozinhar só pro meu namorado e sem dançar.
Obsoleta de novas emoções.
Envergonhada por não ter o talento de saber mostrar o meu talento.
Indignada pelos outros.
Mas eu vou continuar a não mostrar talento nenhum a ninguém.
Será mesmo a vida?
26.3.09
Quando a gente não souber mais fazer o amanhã
Sempre esperei de nós dois um amor eterno e perfeito, porque, lembra, até os nossos 7ou 8 meses de namoro a gente ainda não havia brigado feio feio... E um dia essa briga feia feia chegou.
Não gosto das brigas, mas, admito, amo as reconciliações. O teu jeito de me dizer o quão errados ambos podemos estar e que a gente consegue, sim, fazer um relacionamento melhor me fazem verter lágrimas, mas lágrimas de felicidade.
Espero com medo e armada o dia em que não mais desejaremos um ao outro, e sei que tu também espera isso; lutaremos até a morte dos nossos corações já calejados e viraremos amigos, ou inimigos, ou desconhecidos.
Não me importo mais com isso, o que eu quero é poder viver o presente do teu lado, porque vivendo assim, a gente vai construindo o futuro juntos. Não te esqueças que o amanhã é o futuro de hoje, e que o ontem já passou, e foi tu mesmo quem me ensinou isso.
Mas eu aprendi só agora.
Espero os amanhãs doces e amargos que sucedem, não importa mais; amanhãs são consequência dos nossos 'hojes', e nós bem sabemos o quão bons eles vão ser.
Tu sabe que é o homem da minha vida presente, passada e futura.
Quando a gente não souber mais fazer o amanhã já vai ser tarde demais, meu guri; tua essência estará impregnada nas minhas narinas, eu vou ter absorvido de vez todas as tuas manias para mim e o teu rosto vai virar um retrato fixo, imóvel na parede da minha mente, com aquela tua cara sem choro nem sorriso, só um olhar que penetra meus pensamentos, desejos e raivas, todo meu.
Te amo daquele jeitinho doido, neurótico, exagerado e completamente cego que tu diz que eu tenho.
4.2.09
Se o Marley fosse meu
Tenhos ganas de matá-lo, enforcá-lo com o próprio rabo e até de jogá-lo de volta na caixinha onde o encontrei, mas não consigo. Aquela carinha de "ame esse pobre diabo" amolece e adoça meu coração de mãe de cachorro.
Há um tempo atrás os olhinhos dele eram verdes e ele parecia uma bolinha; hoje, dos olhos verdes restam apenas algumas pintinhas e eu mal consigo carregá-lo.
Ele tem lá seus brinquedos, mas o esporte preferido dele é correr atrás do gato e comer pedras. Não só pedras, como às vezes meias, gesso, tijolos, plástico, pilhas, madeira e uns bonequinhos que minha irmã deixa largados em qualquer cantinho.
A melhor hora do dia é quando ele dorme. Ele volta a parecer aquele anjinho que eu ninava e dava mamadeira há quatro meses atrás, que tinha pesadelos e se escondia debaixo dos meus cabelos pra se proteger e que mamava em qualquer pedacinho de pano que encontrasse; agora, ele come, literalmente, meus cabelos, e paninhos têm só uma utilidade - serem rasgados e destroçados.
Cortes, mordidas e arranhões pelo meu corpo agora são frequentes; não se pode mais deixar comida em lugares que não sejam armários ou a geladeira. O Terrível escala todo e qualquer lugar, independente da altura, devorando sem dó nem piedade toda e qualquer migalha que encontrar.
A patinha rosada dele agora é do tamanho da palma da minha mão, e é ele quem me leva pra passear, literalmente, e a força dele não me deixa esquecer que eu devo providenciar uma coleira de correntes o mais rápido possível.
E além de tudo ele come fermento, tenho certeza. Cada dia que eu acordo e o vejo sentadinho daquele jeitinho torto que só ele sabe sentar eu percebo o quão pequena eu tenho me tornado perto daquela criaturinha, hoje não tão inha assim.
É... o autor de Marley e eu deveria agradecer por ter aquele "pior cão do mundo".
Ele não conhecia o meu Axl.
7.1.09
Quando minha revolta é a minha esperança
Como nos permitimos usar da nossa inteligência durante anos e mais anos e por mais um ou dois, ou sei lá quantos anos de cursinho pra desperdiçar tudo em quatro dias?
Me sinto violada, me sinto burra, me sinto perdida, me sinto vendida.
E eu sabia que um dia isso aconteceria. Eu fui vendida pra sociedade. Fui vendida pra um processo desumano, agressivo e contraditório.
Um dia eu jurara nunca me vender por mixarias.
E em quatro dias, minhas sinapses foram em vão. Milhões de neurônios foram postos e nunca serão repostos.
E agora, me resta esperar pelo meu nome em um espaço de um terço de centímetro em papel vagabundo e que mancha os dedos, mas minha revolta é a minha esperança, fazer o quê.
Ossos do ofício.
