24.12.10

A ausência da grandeza em um mar de desilusão

Eu vou acordar ao meio dia do dia primeiro de janeiro. Não vou pensar. Não vou refletir. Vou sentir uma pontada no córtex frontal que vai acusar a forte bebedeira da noite anterior.
Eu vou descer as escadas e vou encontrar toda a minha família na sala, falando mal de mim, pra variar. E vão comentar o tanto que bebi, acrescentando que não tenho idade pra beber - apesar dos meus vinte anos - e que aquilo foi um grande desgosto pra família.
Eu vou subir novamente as escadas e vou fazer as malas. Não sou bem-vinda ali.
Vou embora.
Vou pra onde ninguém conheça eu ou o meu passado. Vou mudar meu nome. Meu jeito de pensar.
Não vou mais me apaixonar, nem gostar, nem me apegar. Simplesmente não vou.
Vou viver sozinha num mar de silêncio inatravessável. Numa redoma sem abas pra poder ser removida. Uma bolha. Hermética e segura contra sentimentos, desilusões e dor.
Eu vou fingir que o ano que passou não existiu.
Vou fingir que eu não fui feita de idiota, que eu não me apaixonei e que eu não chorei tantas vezes por quem eu nutri tão vil sentimento.
Eu morri em meio a tanta perda, tanta tristeza e tanta lágrima.
Eu morri.

15.11.10

Baseado em uma história real.

Quando ele se sentou ao meu lado naquele bar, eu pensei "é encrenca." Não estava enganada.
A questão é que desde aquele instante eu quis.
Eu quis ter saído com ele dali quando fui convidada, eu queria ter continuado todo aquele blablabla nonsense em inglês em um lugar mais calmo.
Eu percebi que eu só adiei a encrenca.
Jeito estranho de mostrar que quer uma mulher é encostar a sua panturrilha na dela. E eu entendi aquilo, que frustrante pra mim.
Ele virou um passatempo. Um agradável passatempo. E o único problema dos passatempos é que, quando se tornam bons demais, a gente não quer parar. E além disso, era amigo; quantos homens bons ouvintes uma mulher pode encontrar na vida? Eu encontrei. E me espantava ele falar tanto quanto eu.
Eu não queria parar com aquilo. Eu não quero parar, de fato.
O problema é que quando se nasce mulher, tem certas coisas que a gente pode realmente negar, mas elas estão ali, maldosamente implícitas dentro de nós.
Quando aquele olhar passou a me acalmar, quando o beijo, tão banal, passou a me paralisar, quando o braço em torno dos meus ombros se assemelhava a uma fortaleza, eu descobri que eu fiz exatamente o que eu condeno em todas, todas as mulheres.
Ah, tigre, tigre, eu me apaixonei.
E que diabo de amiga seria eu se contasse uma barbárie dessas?
Guardei dentro de mim como se guarda um tesouro num cofre. Inviolavelmente platônica. Dolorosamente silenciosa.
O que me doía mais não era guardar aquilo pra mim, era ser forçada a guardar aquilo.
Mas eu não era o suficiente.
Eu não sou o suficiente.
Ele merece coisa melhor. Eu mereço coisa melhor.
Eu mereço coisa melhor?
Eu mereço coisa melhor.
Doía a presença e doía a falta. Doía o beijo que convidava ao sexo e doía o beijo acanhado de tchau no dia seguinte.
Doía ser a amiga-que-ama.
Doía saber que ele sabia, e doía o silêncio.
Doeu perceber que eu não desejava nada além de contar.
Não queria nada em troca. Amor. Amizade. Sexo. Um olhar repreensivo que fosse! Não pedi nada. Nunca pediria.
E eu jamais olharia naqueles olhos e diria "olha, eu te amo, ok?, só que eu me sinto tão pouco pra ti que eu tô indo embora."

Sem tchau nenhum, eu simplesmente fui embora. 

21.10.10

Finalmente.

A casa dum cinzento sisudo feito dia de funeral caiu feito pedra aos olhos dele; Nunca antes estivera naquele bairro, sequer naquela rua, nunca repararia numa casa feito aquela não fosse por hoje. O dedão da mão esquerda se movia sozinho como quisesse sair correndo da sua mão. Não suava, mas um gosto agridoce tomava conta da sua boca.
Conferiu o hálito uma, duas, três vezes: Cheiro de nada, o melhor cheiro que havia, na sua humilde opinião. Pisou com cuidado na escadinha de madeira podre e escura da entrada da casa, e entrou sem sequer tocar a campainha.
O átrio da casa recendia a conhaque e a água de colônia comprada na mais chinfrim das boticas.  Largou o chapéu no cabideiro, tirou o casaco e com cuidado trocou a carteira do bolso interno do paletó para o traseiro da calça.
Aqueles dois pezinhos enfiados de qualquer jeito na chinelinha de plumas vermelhas esperavam, impacientes, por um olhar que se fixasse no rosto, e não no resto do corpo.
Não era bela, mas nem isso tirava a magia que era a sua visão.
"Vem, meu nego, que te esperei a tarde toda."
Ele tinha mãos que suavam demais e as esfregava com uma absurda frequência nas calças; nunca antes estivera em presença de tal tipo de mulher. Nunca antes estivera com qualquer tipo de mulher, na verdade.
Os pezinhos emplumados desceram as escadas e uma mão com unhas compridas e mal-feitas se estendeu para ele. Tomou aquela mão como quem tomava a hóstia do vigário, e subiu.
Na porta ela já se despira; o corpo acobreado e tísico se deitara na cama, e a mesma mão mal-cuidada o chamou para si.
Não havia escapatória.
Calça, camisa, sapatos, tudo tirado de forma desajeitada, e da mesma forma deitou-se em cima da rapariga; olhos grandes feito moedas olhavam-na, apavorados, como quem pergunta o que fazer a seguir.
"Entra."
Sucessão de suspiros, suor e palavras disconexas, as caras e bocas daquela mulher lhe prendiam a atenção. Seios, mãos, pernas macias e ao mesmo tempo rijas, como podia isso? Beijou-a, um beijo ávido de paixão seguido dos gemidos dela. "Não faz parte do programa, Nego, tenho marido, tenho marido!"
Foi, e veio, e foi e veio sem sequer tirar os olhos daquele rosto há minutos totalmente desconhecido.
Veio o gozo, e veio a culpa. Levantou-se num sobressalto, procurou a carteira no bolso da calça e largou algumas notas que nem se importara em verificar o valor.
"Que é isso, Nego, é demais..."
"Cala a boca e aceita, é de coração."
Desceu a escadinha de madeira podre com um sorriso de canto de boca, acendeu um cigarro e pensou:
"Finalmente homem."
Finalmente.

20.9.10

A Esquina.

Não arrumei, não dobrei nenhuma roupa; joguei-as dentro da mala. São roupas, não um bebê recém-nascido que você precisa cuidar e amar e fazer carinho o tempo todo. Aliás, não preciso nem de roupa, minha pele mais que basta.
Aquele quarto de paredes descascadas e a cama de ferro branco postada bem no meio do cômodo me deixavam incomodada. Acabou, querido, acabou o tempo em que eu te levava pra escola pela mão como se você fosse uma criança em época pré-escolar.
Eu sei que depois que for embora, você não vai notar minha ausência; nem valor, não é?, dizem que a gente dá valor às coisas quando perdemos elas.
Eu queria ter mais que aquela arma velha que sua avó te deixou de herança e eu, cuidadosamente, escondi de você e desses seus desejos suicidas.
O portão pichado travou de novo, e eu não vou pagar pelo chaveiro. Chutei uma, duas, três vezes, ele abriu e foi assim que eu o deixei. Grande bosta o seu portão.
Senti a calçada como se fosse a minha vida. Tipo quando as pessoas passam apressadas e sem notar no que pisam, ou aquelas mulheres nojentas de salto fino que cravam aquelas porcarias nos vãos do meu peito.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, a gente brincava disso, lembra?
Senti a calçada e percebi que tinha saído de camisola; grande bosta, também, ninguém nota, ninguém nunca notou. Queria as balas da sua arma. Queria mais que você pode me dar.
Meus passos são vagarosos e não têm pressa de chegar à esquina; você sabe, a gente dobra uma, dobra outra, dobra outra e outra até que chega no mesmo lugar, andando em círculos maldosamente quadrados que nos trazem a falsa impressão de ir longe.
Eu nunca fui longe na minha vida. Nunca, depois de você.
Agora eu estou no meio do caminho, e a esquina tá lá, longe e perto ao mesmo tempo; perdi umas calcinhas e outras meias no caminho, que se foda a mala, minha pele, minha pele é o que me basta.
Me senti pichada como aquele armazém da esquina que você costumava comprar pão de queijo pra mim. Odeio pão de queijo, desde aquela vez que a gente achou um inseto dentro de um, mas eu estou pichada, meu peito está marcado, meu rosto, meu deus, pareço um panda com esse rímel todo borrado.
Assim que eu chegar na esquina, acaba, acaba, acaba.
Eu não me importo de errar o tiro, de vegetar em dor, de ficar louca com isso, de esquecer de tudo; esquecer é bom, né?, quando a gente anula da cabeça tudo aquilo de bom e de ruim que passou e vira um ser indiferente.
Como pesa, essa arma da sua avó.
Três passos.
Dois.
É o último sorriso.
O último sorriso que você me dá antes de levar o tiro.
O último brilho desses teus olhos âmbar antes de fitarem o vazio. Vazio, vazio. Tipo eu.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, lembra?

Como quer.

"Depois que se deita na cama de um estranho, ele fica mais conhecido que muitos dos seus amigos", é o que ela pensava.
Por muitos anos não adotara daquela filosofia, até que um dia provara; foi bom, embora vazio. E era de vazio que se resumia sua vida desde então.
Emoções não eram forte e sempre preferira ter muitos e nenhum ao mesmo tempo.
"Assim não dói, sabe, quando um resolve ir embora."
Mas o que lhe deu prazer foi o fato de ter deitado ali, e ter deixado ali a marca da sua presença. Deu prazer saber que dela só lembrariam o prazer em si, e se lembrarem, seria com aquele sorrisinho interno que mistura malícia e vontade.
Não se gabava, longe disso, era até mediana - veja bem, não era uma deusa da beleza e da boa forma, nem uma Afrodite no cio, servil e ardente. Era alguém, e nem disso se lembrariam, quem sabe.
Ossos do ofício.
Um dia tanto amara, e hoje nem a si mesma sentia esse tão nobre sentimento.
Deitara ali pensando como um viciado que mente para si. "Só mais essa vez, e juro, calo minhas vontades". Pobre dela, que não pensava mais de uma única vez e nem agia sem antes fazê-lo.
Pobre dela, que saíra dali querendo mais.
Saíra como queria.

12.9.10

Um daqueles sem título

Remexi todas as minhas gavetas, à procura das contas atrasadas. Achei uma caixa pequena, daquelas que a gente compra em lojinha de artesanato; abri e me deparei com aquelas lembranças. Cartas, fotos, as nossas alianças.
Foi estranho lê-las todas, as cartas. Tinham gosto amargo e envelhecido. Gosto de adolescência.
E eu já não tenho idade pra rememorar sentimentos.
Senti um nojinho de lembrar de todas as vezes em que nos agarramos, sem pudor, em pracinhas onde crianças balançavam sem entender os olhares de reprovação das mães sobre nós dois; senti pena de todas as vezes que falhaste e eu disse 'tudo bem, meu amor, acontece.'
Acontece que não acontecia assim como acontecia contigo, que ironia.
Fiquei velha demais para sentimentalidades e saudosismos? Não, fiquei realista demais para tais sentimentos.
Que dirão meus filhos quando souberem que a avó dos netos deles fugia de casa pra se trancar no quarto do namoradinho proibido?
Ririam, certamente...
Assim como eu rio de mim mesma.

3.9.10

Reminiscências

Até a tinta da parede tinha descascado, tão velha era a casa. Já era velha quando fomos para lá; dos móveis restaram apenas as fotos e as lembranças daquilo que parecia ter sido um tempo bom.
Grande merda, o pó. Deitei no chão, pernas esticadas na parede, uma inversão do sentar convencional.
A porta grande da varanda escancarada trazia os restos do jardim.
Que saudade daqueles dias onde ficávamos deitados na cama até a hora de voltar a dormir.
Virei a cabeça. A infiltração na parede fazia desenhos de rostos desconhecidos.
Fechei os olhos.
Virei para o outro lado.
Eu saberia reconhecer teus pés em qualquer lugar do mundo.

1.9.10

O meu cântico do calvário

Odeio dias de sol. Agora mais ainda.
Parecia que o dia sorria por tê-la no céu. Parecia que as coisas poderiam continuar como sempre, leves, amistosas, rotineiras. O mundo é cruel, porque nada ficou no lugar.
Odeio dias de sol.
Não me perguntei o porquê, e me nego a fazê-lo até hoje; faz quase um mês. Um mês surreal, onde eu vi arrancada da minha vida a pessoa que eu mais amava e mais queria bem no universo.
E eu só consigo lembrar do riso dela, acabrunhado, como se fosse proibido sorrir naquela casa. Eu vejo os olhos de amêndoa brilhantes que me censuravam a cada comentário estúpido, a cada frase ou atitude impensada.
"Sabe, Carol, antes de nascer, eu cuidava de ti. Acho que agora tu tens que cuidar de mim, já que eu tô aqui."
'E eu cuidei bem de ti', me pergunto, 'pra chegares a esse ponto?'
E ela nunca vai poder me responder isso.
Ela odiava estudar. Madrugava era pra ver televisão, a dananda. Gostava de mesa farta, com gente rindo ao redor, comida quente e olhares mornos de quem se ama mutuamente. Passeava sob o sol quente horas e horas em silêncio, olhando ao redor, pensando na vida. Era bela, e mais que bela, era modesta, e a modéstia aumentava aquela beleza de uma forma tal que ela era belamente imaculada.
E eu gostava de vê-la feliz. Ah, como gostava.
Odeio dias de sol.
O mundo não chorava, triste, por vê-la partir; mas sorria, satisfeito, por ter seu anjo de volta à casa.
O mundo que se foda, eu te quero de volta.
O mundo que chore, eu só queria ouvir tua voz mais uma vez.
O mundo que se conforme, meu desespero é diário, não passa, não passa.

O mundo sorria, satisfeito, mas esse sorriso maldoso e cínico deixou dentro de mim a dor e a tristeza que a tormenta causa.
O mundo sorri por me deixar sozinha e perdida.
E eu sorrio por saber que não é verdade.
Eu sorrio por saber que estás sempre e sempre comigo.





"A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu." - Chico Buarque.

19.7.10

Auto da Xícara Maluca

Era como se estivesse num carrossel, mais precisamente em uma xícara maluca. No começo, as coisas giram devagar, e se sente um friozinho no estômago. A velocidade do carrossel aumenta, e ela aumentava a velocidade de giro da xícara onde estava sentada.
Em alguns segundos, o mundo era um turbilhão de barulhos desconexos e luzes disformes.
A cara tola e sorridente fixava os olhos em um ponto só, mas o rodopiar da xícara não permitia a ela focar em nada.
Mas ela gostava daquilo.
Era como se a eternidade se transformasse em apenas segundos; os desvarios, o frio na barriga, a falta de ar, sensações misturadas que traziam a ela um conforto inquietante aumentavam cada vez mais e mais, até que ela imaginasse conseguir viver apenas sentindo aquilo.
Num solavanco e sem porquês plausíveis, o carrossel parara, e a xícara também. Não havia mais turbilhão, não havia sensações gostosas nem eternidades transformadas em segundos.
Tudo virara um mar de náusea e tontura.
Fora tirada à força dali, do lugar onde ela encontrara um porto seguro dos males do mundo. Fora arrancada de um lugar que em alguns minutos seculares se tornara seu, só seu, o seu castelo inatingível, seu conforto, sua prisão.
Era o fim. Era o fim da brincadeira, o fim do faz-de-conta.
Jogaram-na de volta no seu mundo, tiraram-na do seu brinquedo, como se não servisse, como se não importasse mais.

Era ela, só ela, de novo, naquele mar de gente estranha de face borrada, naquela multidão de desinteressados frios e egoístas.

Foi quando as lágrimas contidas caíram, silenciosas.

18.6.10

Sem Título [2]

Sentei na soleira da porta, a camisola por debaixo do chambre subindo ao menor movimento; Larguei ao meu lado o livro, o cinzeiro e a taça.
Saí da cama porque as vozes me importunavam.
Traguei como se aquele fosse o último cigarro da face da terra, olhei pro céu, depois pro livro. Ignorei-o.
Idiotice minha, esquecera os chinelos. Então olhei para os meus pés: mexia os pequenos dedos roxos, sem senti-los... E foi aí que me lembrei.
Com os chinelos, eu esquecera como era viver.

23.4.10

Um pouco de perdão.

Perdoa, porque pequei.
Vendei teus olhos
Beijei teu rosto
E saí porta afora, sem remorso.
E enquanto tu jazias no teu sono limpo e inocente
Enquanto tu sonhavas
Eu fui leviana.
Me refestelei em outros corpos, beijei outros lábios,
Nenhum igual ao teu, mas todos desejados.
Perdoa, porque não te menti.
Não tive a audácia de te esconder a verdade
Tu sabias, tu sabias!
Alarmei teu coração das minhas armadilhas,
Das minhas ânsias e vontades.
Perdoa, te mando agora;
Sempre soubeste o quão dissimulada sou
Sempre viste a mentira brilhar nos olhos meus
Não te faças louco, que tu sempre soubeste
É esse teu coração burro e puro e amoroso
Coração que não mereço, não mereço
Porque enquanto pensavas em mim,
Meu corpo encostava no dele;
Se sonhavas comigo,
Sequer lembrava teu nome.
Chamavas meu nome, e eu o dele
Juravas amor
Mas que amor?
Eu joguei fora.
Perdoa, ou não perdoa.
Porque não sou santa
Foste ingênuo na minha maldade
Vítima do meu corpo

Agora vai, e não volta.
Tu já sabias.

24.3.10

A Danação

Eram belos olhos da cor do escuro que me amedrontava na infância. Belos olhos de negrume, belos cabelos que sempre pareciam estar molhados, bela pele apática da cor de quem cresceu num lugar sem janelas.
Era toda bela, toda bela.
Nunca falava, nunca pensava - ou nunca me deixava desvendar o seu olhar. Passava meus dias assistindo os cabelos descerem por seus braços lanhados enquanto ela escrevia.
Braços lanhados. De gilete. Milhares e milhares de cicatrizes que doíam até na alma de quem as via. Imagino até hoje se ela teria o resto do corpo lanhado daquele jeito, se fazia porque gostava, se faziam nela, se a intenção era atrair atenções.
Imagino-a como alguém que talvez tenha deixado o sofrimento tomar conta de si.
Eu juro que a teria amado.
Adorava o tom que havia na sua risada, engasgando pela próxima respiração, implorando para que o tempo passasse.
Não a ouço mais, não a ouço mais.
Eu a via todos os dias, depois algumas vezes por semana, depois não mais.
Lanhara-se novamente, e fora eu quem a encontrara, olhos arregalados fitando alguma coisa interessantíssima, pele rígida e fria, estirada no chão de uma rua suja no meio de miseráveis, junkies e prostitutas. Nunca a imaginara assim, em meio à podridão, ao abandono.
Lanhara-se novamente e sangrava, sangrava, sangrava; sangrava o sangue da dor, do sofrimento, da solidão; se livrara de tudo, se livrara de si mesma.
Não a culpo; aguentara o máximo que pudera, e eu a sentia fria como o mais frio e úmido dos invernos.
Não a culpo, não a conhecia, só a admirava, admirava, admirava.
Livrara-se da danação de viver nesse mundo de meu Deus. 
E eu me livrara de viver na danação do amor platônico.

2.2.10

Sem título.

Hoje eu vi o pôr-do-sol sentada no nosso banco habitual. Vi um sol alaranjado por entre nuvens amarelas e felpudas, vi pássaros e libélulas, vi gente e mais gente, e não atingi o meu objetivo.
Eu só queria, por um instante, te esquecer.
Mas enquanto eu tentava - em vão - te tirar da cabeça, descobri as outras mil coisas que eu quero também.
Eu quero viver. Quero viver e, em cada dia que meu coração bater, eu quero descobrir coisas novas.
Eu quero aprender, e quero ensinar. Quero ver a cara de tédio de alguns dos meus alunos, e a cara de compenetração de uns outros poucos. Quero terminar a faculdade e conhecer alguém que me queira, que aceite os meus trejeitos e os meus costumes, que olhe bem pra mim e diga "Te quero pra vida toda!", quero dizer que desejo o mesmo e quero começar uma família. Quero ter uma casa estilo inglês, um carro importado e um basset. Quero parir um menino e chamá-lo de Benjamin, e depois uma menina, e dizê-la Lily, e depois de um tempo, quem sabe, uma "raspinha do tacho", e chamá-lo de João Guilherme.
Quero vê-los brigarem e se amarem e apoiarem uns aos outros. Quero formá-los, quero vê-los de toga, sendo felizes e realizados. Quero vê-los tendo sucesso na vida, o mesmo sucesso que construí ao lado daquele homem que disse me querer pra vida toda. Quero ganhar dinheiro, quero construir uma sala de vidro que dê para o jardim onde os meus netos vão brincar com o basset que já está mais pra lá do que pra cá, quero sentar à ponta de uma mesa com meus filhos, genro, noras, netos, namorados de netos. Quero dar um último adeus ao meu marido, sentar olhando as suas antigas fotografias, dizer o quanto ele foi especial pra mim; quero chorar, mas só por um dia, e dizer aos meus amores que me deixem com minha vida construída e que vão construir as deles.
E eu quero te reencontrar pra dizer que, durante esse tempo todo, nunca te esqueci, muito menos deixei de te amar.

20.1.10

Introspecto

Caminhou um, dois, dez passos, todos olhando para trás. Observava que ele se afastava, nos seus passos flutuantes, pusera a mão dentro do bolso, tirara os óculos escuros e fora em direção ao sol, caminhando naquela eterna despreocupação dele de quem segue a vida com uma leveza sobrenatural.
Já não o enxergava mais, quando voltou sua cabeça para frente, o queixo rente ao pescoço, analisando os passos que dava.
Passos desiguais, baixos, arrastadiços.
Nunca soubera andar na rua. No olhar nada cabia além do vazio que ela levava consigo. Sorria quando via um cachorro, um cena inusitada. As mãos frouxas batiam hora na bolsa, hora nas coxas, sem interesse em se agarrarem em alguma coisa.
Sem interesse em mais nada.
Olhava a própria sombra e admirava o poder que o sol tinha de pô-la curvas onde nunca imaginara ter; ela era sua própria sombra, seu próprio escuro,  o buraco onde escondia o que quer que fosse.
Queria que ele estivesse lá. Queria voltar correndo só para, mais uma vez, olhar fundo nos seus olhos e implorar.
Não.
Continuou, com seus passos e seu olhar de quem se perdeu da vida e da própria sorte, de volta para casa.