Não arrumei, não dobrei nenhuma roupa; joguei-as dentro da mala. São roupas, não um bebê recém-nascido que você precisa cuidar e amar e fazer carinho o tempo todo. Aliás, não preciso nem de roupa, minha pele mais que basta.
Aquele quarto de paredes descascadas e a cama de ferro branco postada bem no meio do cômodo me deixavam incomodada. Acabou, querido, acabou o tempo em que eu te levava pra escola pela mão como se você fosse uma criança em época pré-escolar.
Eu sei que depois que for embora, você não vai notar minha ausência; nem valor, não é?, dizem que a gente dá valor às coisas quando perdemos elas.
Eu queria ter mais que aquela arma velha que sua avó te deixou de herança e eu, cuidadosamente, escondi de você e desses seus desejos suicidas.
O portão pichado travou de novo, e eu não vou pagar pelo chaveiro. Chutei uma, duas, três vezes, ele abriu e foi assim que eu o deixei. Grande bosta o seu portão.
Senti a calçada como se fosse a minha vida. Tipo quando as pessoas passam apressadas e sem notar no que pisam, ou aquelas mulheres nojentas de salto fino que cravam aquelas porcarias nos vãos do meu peito.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, a gente brincava disso, lembra?
Senti a calçada e percebi que tinha saído de camisola; grande bosta, também, ninguém nota, ninguém nunca notou. Queria as balas da sua arma. Queria mais que você pode me dar.
Meus passos são vagarosos e não têm pressa de chegar à esquina; você sabe, a gente dobra uma, dobra outra, dobra outra e outra até que chega no mesmo lugar, andando em círculos maldosamente quadrados que nos trazem a falsa impressão de ir longe.
Eu nunca fui longe na minha vida. Nunca, depois de você.
Agora eu estou no meio do caminho, e a esquina tá lá, longe e perto ao mesmo tempo; perdi umas calcinhas e outras meias no caminho, que se foda a mala, minha pele, minha pele é o que me basta.
Me senti pichada como aquele armazém da esquina que você costumava comprar pão de queijo pra mim. Odeio pão de queijo, desde aquela vez que a gente achou um inseto dentro de um, mas eu estou pichada, meu peito está marcado, meu rosto, meu deus, pareço um panda com esse rímel todo borrado.
Assim que eu chegar na esquina, acaba, acaba, acaba.
Eu não me importo de errar o tiro, de vegetar em dor, de ficar louca com isso, de esquecer de tudo; esquecer é bom, né?, quando a gente anula da cabeça tudo aquilo de bom e de ruim que passou e vira um ser indiferente.
Como pesa, essa arma da sua avó.
Três passos.
Dois.
É o último sorriso.
O último sorriso que você me dá antes de levar o tiro.
O último brilho desses teus olhos âmbar antes de fitarem o vazio. Vazio, vazio. Tipo eu.
Quando acaba a quadra, acaba a vida, lembra?